O livro de Ester conta como uma jovem judia, levada ao palácio persa sem ter escolhido isso, precisa decidir o que fazer quando o seu povo é ameaçado de destruição. A história costuma ser lembrada pela coragem de Ester, e com razão. Mas alguns detalhes do texto ajudam a ensinar essa coragem sem exageros: o perigo era real, Ester agiu com cuidado e não agiu sozinha.
Ester foi levada ao palácio
Ester vivia em Susã, uma das capitais do Império Persa, e tinha sido criada pelo primo Mordecai depois da morte dos pais (Ester 2:7). Quando o rei procurou uma nova rainha, muitas jovens foram reunidas no palácio, e Ester estava entre elas. O texto diz que ela foi levada e, mais tarde, escolhida pelo rei. Não diz que sonhava com uma coroa, nem apresenta tudo como uma competição alegre. Ao contar a história, vale evitar essa imagem de concurso.
Tornar-se rainha também não a livrou do perigo. Quando Hamã obteve do rei uma ordem para destruir os judeus, Mordecai lhe lembrou que estar no palácio não garantia que ela escaparia (4:13).
A coragem de Ester diante de um risco real
Mordecai pediu que Ester fosse falar com o rei em favor do povo. Ela respondeu que entrar na presença do rei sem ser chamada era arriscado: quem fizesse isso podia ser morto, a não ser que o rei estendesse o cetro de ouro. E havia trinta dias que ela não era chamada (4:11). Ester não tinha nenhuma garantia de como seria recebida.
Esse detalhe ajuda a falar de coragem de modo responsável. Ester não agiu porque sabia que tudo terminaria bem. Conhecia o risco e decidiu agir mesmo assim. Com as crianças, não é preciso ensinar que coragem é não sentir medo. Muitas vezes fazer o que é certo traz insegurança, e a coragem aparece na decisão de agir com responsabilidade apesar disso.
A pergunta de Mordecai: para um momento como este
Na mensagem a Ester, Mordecai diz que, se ela ficasse calada, o alívio e o livramento viriam de outro lugar para os judeus. Em seguida, pergunta se não seria para um momento como aquele que ela havia chegado à posição de rainha (4:14). É uma pergunta, e não uma revelação. Mordecai não afirma que Deus colocou Ester no trono exatamente para isso. Ele a faz perceber a responsabilidade que a sua posição lhe trazia naquele momento.
Esse cuidado evita ensinar às crianças que sempre saberemos por que algo aconteceu em nossa vida. Muitas vezes não sabemos. Ainda assim, podemos perceber a necessidade de alguém e pensar em como agir bem com o que temos.
Deus não é mencionado no livro de Ester
No texto hebraico tradicional, o nome de Deus não aparece. Não há cena em que Deus fale com Ester ou com Mordecai. Por isso, ao contar a história para crianças, é melhor não acrescentar frases como “Deus disse a Ester para ir ao rei”.
Ao mesmo tempo, o livro reúne acontecimentos que se encaixam de maneira notável. Mordecai descobre uma conspiração contra o rei, e o fato é registrado e esquecido. Mais tarde, é lembrado justamente na noite em que o rei não consegue dormir (6:1). Pouco depois, Hamã cai, e Mordecai recebe honra e autoridade. Podemos conversar sobre o cuidado de Deus com o seu povo sem colocar no texto o que ele não diz. A história mostra que a preservação dos judeus não dependeu de uma única pessoa.
Coragem com prudência
Depois de decidir ir ao rei, Ester pediu que os judeus de Susã jejuassem por ela durante três dias, e ela e suas servas fariam o mesmo (4:16). Quando entrou na presença do rei, ele estendeu o cetro (5:2). Ester não fez logo a denúncia. Convidou o rei e Hamã para um banquete e, depois, para um segundo, e só então revelou que era judia e que a sua vida e a do seu povo estavam ameaçadas (7:3-4).
O texto não explica por que ela esperou. Mas mostra que Ester não agiu de forma apressada. Para as crianças, é uma lição útil: fazer o que é certo pode incluir pedir ajuda, pensar antes de agir e procurar o momento de falar.
Uma criança não precisa enfrentar tudo sozinha
A história pode ser mal aplicada se a criança entender que ser corajosa é enfrentar sozinha qualquer pessoa ou situação perigosa. A própria Ester buscou apoio: manteve contato com Mordecai, pediu que o povo jejuasse e dependia da autoridade do rei para que algo mudasse.
Na vida de uma criança, a coragem costuma aparecer em coisas mais próximas. Se um colega está sendo maltratado, ela pode procurar um professor ou outro adulto de confiança. Se fez algo errado, pode ter coragem de contar a verdade. Se uma situação a deixa com medo ou desconfortável, precisa saber que pedir ajuda é uma atitude correta.
O que veio depois, e o que pede sensibilidade
A queda de Hamã não resolveu tudo de imediato. A ordem contra os judeus já tinha sido enviada às províncias e não podia ser simplesmente cancelada (8:8). Ester voltou a pedir ao rei, e um novo decreto permitiu que os judeus se defendessem (8:11). Esses dias passaram a ser lembrados na festa de Purim (capítulo 9).
O livro tem passagens duras: a ameaça de destruição de um povo, a morte de Hamã e, no capítulo 9, a morte de muitos inimigos dos judeus. Com crianças pequenas, não há necessidade de entrar nesses detalhes. Se perguntarem, basta dizer, com calma, que o povo estava em perigo e foi autorizado a se defender.
Como conversar sobre Ester com as crianças
Depois da leitura, uma conversa simples costuma render mais do que uma longa explicação. Três perguntas podem ajudar: Por que Ester precisava falar com o rei? O que a decisão dela nos ensina sobre coragem? Quando você pode precisar de coragem para fazer o que é certo ou ajudar alguém?
As respostas podem levar a situações reais da criança, como admitir um erro ou procurar um adulto ao perceber uma injustiça. Podemos mostrar que coragem e sabedoria andam juntas, e que usar o que temos em favor de outras pessoas é uma responsabilidade.
Agora que você conhece melhor o contexto da passagem, leia com as crianças a história Ester diante do rei e continue a conversa com as perguntas da página infantil.